quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Bastardos Inglórios

Por Priscilla Rios

Fora os conhecidos, tem os bastardos que a gente nem imagina. Conversando com uma amiga refleti o seguinte... (deixe o mel ao lado para adoçar a boca no final, porque ou você vai ficar com a língua amarga ou com a pulga atrás da orelha.. e se ficar, espero que pulga goste de mel)...

Até que ponto as pessoas são o que achamos que são? Diariamente rotulamos pessoas em boas e ruins a partir da leitura de suas características. A resposta é uma via de mão dupla, afinal assim como a pessoa pode nos manipular mostrando apenas as características que lhe convir, também somos nós auto-manipuláveis ao enxergar apenas o que queremos em uma pessoa, ainda que ela tenha atitudes suspeitas ou contraditórias.

Prontas para dar o bote, esses seres abomináveis das neves distribuem sorrisos meigos, fala mansa, apertos de mão forte e rugas de seriedade. Longe dos holofotes da verdade eles armam arapucas, intrigas, colocam amigos contra amigos, pais contra filhos e filhos contra pais. Nada sobra. Os bastardos inglórios estão a solta destruindo lares, confianças, empresas, amizades e famílias. Sujeitos bem apessoados que dizem o que você quer ouvir, e se acharem que vale a pena chegam a construir uma história de vida contigo - ainda que leve décadas -, se no final puder sacar o grande prêmio. Ganhar de você na loteria.

Seduzido, você pode até casar de papel passado com a ideia da pessoa. Anos depois quando ela se rebelar perde as calças, o dinheiro, a confiança, a auto-estima, os negócios talvez, e a noção de em quem confiar. Ficamos com as sobras de nós mesmos. Em trapos e em frangalhos.

Depois de calejados com as tramoias desses bastardos, fica o calo em forma de prejuízo físico e emocional e a lição curta e grossa. Até o ponto final dessa história você deve estar mais amarga e mais contida, mas está mais forte. Toda a merda serviu para adubar a terra, e ainda será possível colher flores na vida.(E vejo flores em você...)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Meu pinguinho de gente


Por Priscilla Rios

Nasceu. Tudo mudou. Os horários, as cores, as roupas, a alimentação, o tempo. O ar cheira a flor de laranjeira. O medo transpira bravura. O corte do cordão umbilical é só o primeiro laço que sentimos apertar no peito. E esse laço vai ficando mais justo no primeiro chororô, no primeiro sorriso, no primeiro bico, no primeiro segurar de dedos.

Seus olhos arregalados me dizem tudo o que sempre quis ouvir e seu bocejar traz uma paz que vai de uma porta a outra da casa. Se há chuva na janela, é poesia. Se há sol, é música. Há um novo sentido no revoar da cortina dançando com o vento e no orvalho que repousa na grama.

Sigo andando pela casa e meus passos já não pertencem a meus pés, caminho com o coração.

Cheiro a leite o dia todo e me orgulho de ser o seu perfume preferido.

Agora se respiro fundo é só pra você ouvir minha respiração e dormir melhor. O seu sono é a minha paz e o seu despertar é a minha força.

sábado, 25 de setembro de 2010

Perguntas franzinas e respostas caducas


Por Priscilla Rios

A certeza das coisas nos faz sentir seguros, confiantes, mas saber para onde o vento sopra requer vivência e vivência não tem nada a ver com estabilidade. Olhando de dentro para fora, às vezes existe a ilusão de que todo mundo tem as respostas a indagações básicas (porém nada simples), menos você.

São indagações profundas como: 'o que eu quero da vida', 'qual a minha missão nesse planeta', 'o que me faz genuinamente feliz?' Incomodados com a ausência de respostas no presente, começamos a pirar no futuro mais que perfeito com questões como 'o que será de mim daqui 5, 10 ou 20 anos?'

Essas perguntas no início incomodam, vez ou outra tiram o sono, um dia viram lágrimas e no outro são queixas. Elas até parecem insignificantes quando ditas em voz alta, o que te faz sentir ainda menor e mais sem propósito.

O que fazer?? Sentar em cima das perguntas e fingir que elas não existem ou levar elas para a cama comigo e compartilha-las com minha insônia. O maior curioso é que por trás dessa máscara de inimigas do bem estar e do atalho para a satisfação e plenitude, essas indagações são nossas amigas. Elas nos levam a refletir sobre nós mesmos, desbancando-nos do alto do nosso conformismo. São elas que nos empurram para frente, que nos forçam a tomar uma atitude, a fazer escolhas e decidir nossos caminhos pessoais e profissionais. Nossas aliadas no progresso e na evolução mental, física e espiritual.

É claro que o comodismo é pesado o bastante para tentar se impor e ele faz “picuinha” na nossa cabeça nos colocando contra nossas indagações. As vemos como vilãs que não nos deixam ter um minuto de descanso e que nos colocam o tempo todo numa sinuca de bico. O esperto do comodismo também nos faz sentir incompetentes em colher as respostas do 'pé da sabedoria' (uma árvore frondosa cujo fruto não é para o nosso bico).

Para nosso alento, seguimos nossos caminhos incertos, certos de que a lenda de quanto mais velhos e encurvados ficamos por fora, mais altos e fortes ficamos por dentro.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Saga das Grávidas - parte 7 – Aos 28 e 9 meses

Por Priscilla Rios

Chegar aos 28 com a benção de exibir por aí uma barriga de 9 meses é sem dúvida a realização de um sonho para mim. Claro que o milagre da vida segue acompanhado de uma responsabilidade 10 kg mais pesada: tomar decisões de gente grande a partir de agora, afinal definitivamente não sou mais a criança da casa. Se é bom ser adulto?? Ainda estou experimentando. Mas apesar da consequência dos meus erros daqui para frente não refletir somente em minha vida, sinto que o sucesso também será muito mais recompensador.

Como mãe de primeira viagem, ainda estou elaborando a minha receita de bolo perfeita... as linhas sinuosas do imprevisto, o esforço dobrado, os sacrifícios feitos sem cobrar nada em troca e as gratas surpresas da maternidade serão certamente o recheio dos próximos 30 bolos em que eu acender velinhas na minha vida. Lógico, quem as apaga não sou mais eu.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

“É preciso saber viver........ toda pedra no caminho você pode retirar...”


Imagem: Josias de Souza

Por Priscilla Rios

Ouvi uma vez: “uma pessoa só tira sua paz se você permitir isso”. Quando éramos crianças ou adolescentes não tínhamos vergonha de dizer NÃO. Pelo contrário, dizíamos não para tudo, sem titubear. Depois de virar gente grande (adultos rsrsrsrs) nos apoiamos em desculpas como “aceitei por educação” e dizemos SIM para coisas que queremos dizer não. Talvez por sabermos que dizer não significa desapontar algumas pessoas, ou quem sabe porque dizer não pode nos rotular como incompetentes. Acabamos pegando desde um trabalho em que não vamos lucrar seja em conhecimento seja em dinheiro, ou mesmo permitindo abusos e ofensas de gente mal educada. Dê uma basta nisso. Essa tolerância permissiva diminui e te distancia do seu potencial. Acaba sendo um atalho para nos transformarmos em um puxa saco de primeira. Ainda temos a capacidade de posar de vítima da situação, porque você não podia dizer não para 'seja lá quem pediu'. É preciso ter em mente que se está recusando o pedido e não a pessoa. Ponha as coisas na balança, veja o que realmente vale a pena e aprenda a viver para você. Se colocar em primeiro lugar não é egoísmo é obrigação.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Saga das Grávidas – parte 6 – A comunidade do bolinha

Reprodução: www.cartoonstock.com

Por Priscilla Rios

Eu sabia que ela existia, mas não tinha consciência até entrar ingressar nela. As mulheres grávidas parecem pertencer a uma comunidade - quase sagrada e algumas até santificadas pelos maridos – com direitos, deveres e tratamentos completamente diferentes do restante do mundo. Nesse final do terceiro trimestre posso dizer enquanto a barriga me permite: que falta vão me fazer os caixas especiais do supermercado, furar a fila do banco sem peso na consciência, ganhar lugar no ônibus lotado, andar no lugar mais espaçoso do carro, poder repetir quanto quiser as bobeiras que eles dão no avião sem receber caras feias, e todo mundo no trabalho oferecer tudo o que está comendo (medo de terçol rsrsrsrs), ganhar um sorriso e o clássico carinho na barriga onde quer que eu vá, fazer drenagem linfática de graça pela Unimed e ganhar presentes por 9 meses. É, os benefícios da função já se provaram melhores que a remuneração.

Parece que a conversa só é de igual para igual entre grávidas, talvez por isso a gente sempre torce para engravidar ao mesmo tempo que uma grande amiga. Nada como compartilhar as interrogações, exclamações, namorar as mesmas vitrines e ter 9 meses para repassar assuntos profundos e supérfluos sobre o mesmo tema. É a tal da formação da vida, cujas mães de segunda viagem são doutoras.

E quem é mãe de um é mãe de todos.. está sempre reparando em como os outros educam ou deseducam os filhos. Uma simples espera no pediatra é um remoer de julgamento ou uma troca de elogios.. “como está lindo, como está grande, como é educadinho...”. Mas se está grávida, a primeira lei da comunidade é: não reparar no terrível comportamento do filho alheio senão seu filho pode nascer igual. Aí é um tal de bater na madeira e Deus me livre pra lá, Deus me livre pra cá. Na terra de faz de conta da comunidade do bolinha todos querem parir príncipes. Sapos cururu só na lagoa.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Saga das Grávidas – parte 5 – No cumprimento do dever


Por Priscilla Rios

Já são 8 meses de mimos e carinhos na barriga. A barriga aliás há tempos virou propriedade pública, quem chega bota a mão, mas eu não tenho nada do que reclamar, a gravidez acaba mesmo sendo o assunto da manhã, tarde e noite entre conhecidos e, especialmente, entre desconhecidos. Quem vê na rua sempre puxa assunto com interrogações da casa: o neném é pra quando?? É menino ou menina?? Já escolheu o nome??

Na sequência vem os conselhos abotoados de exclamações.. “Sabe que o significado do nome é importante né, reflete na personalidade!!”, “toma bastante água que facilita o parto!!”, “dorme do lado esquerdo que melhora a circulação do sangue para o neném!”, “já lavou as roupinhas da maternidade? Tem que deixar tudo pronto a partir do sétimo mês, vixe aí qualquer hora é hora!!”, “já passou as roupinhas, sabe que tem que passar por dentro né?.. É para matar os germes!!”, “Sabe que tem que usar sabão de coco né e se puder lavar na mão é melhor viu!!”...

A lista de coisas para fazer segue aumentando junto com a barriga. Barriga é também outro assunto que dá muito pano pra manga nas rodinhas sociais: “tem passado bastante óleo?”, “antes de entrar no chuveiro sabe que tem que passar óleo né?”, “e depois do banho também, óleo e creme que é para não dar estria”. A gente vai ficando untada de conselhos e depois quer passar tudo adiante quando encontra alguém no comecinho da gestação.. o círculo é mesmo vicioso. Parece que se a gente não aconselhar não cumpriu com o dever. E venhamos e convenhamos, seja o que for, nada como por a cabeça e a barriga no travesseiro com o sentimento de missão cumprida.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Saga das Grávidas – parte 4 – Força Motriz


Por Priscilla Rios

A minha vida está no sétimo mês, evoluindo aos poucos e rapidamente, assim mesmo contraditoriamente. Tenho construído pontes entre o egoísmo e a bondade, usado o atalho dos extremos com mais frequência do que costumo. Meu ponto de equilíbrio físico e emocional mudou eu diria uns 30cm, o tamanho do meu neném. Essas turbulências e calmarias, inquietudes e quietudes, loucura e tranquilidade plenas tem me feito sentir viva nesses 7 meses. Até porque contraditoriamente falando (tenho usado muito essa palavra ultimamente) acho que no auge da minha frenética vida emocional cheguei a conclusão que perdi o direito físico de morrer. O clichê “alguém depende de mim” virou realidade. E essa realidade me chuta literalmente, de manhã – tarde – noite, para um mundo de sonhos, onde fico fantasiando momentos que quero compartilhar com meu filho. E antes mesmo dele nascer noto que ganhei um franzir de testa. Movimento involuntário que normalmente aparece quando reflito sobre questões cruciais entre um xixi e outro. E assim como quem acha que pode resumir sete meses em um dia e em pouco mais de 15 linhas eu encerro esse texto. Coisa típica de mãe de primeira viagem, pensar que pode tudo – pelo meu filho agora vou bater no peito e encarar o mundo se preciso for – mas ao mesmo tempo continuar subindo numa cadeira toda vez que vê uma barata. E para não dar o gostinho doce da última palavra desse texto a barata, encerro com força motriz. Afinal a gente não pode parar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Saga das Grávidas - parte 3 - Medos Sonoros


Por Priscilla Rios

Colocar uma pessoa nesse mundo oscila entre tatear a imensidão do desconhecido e suar frio o pavor da incapacidade. Será que vou conseguir ser o melhor de mim? Será que o melhor de mim basta? Será que terei o equilíbrio para medir palavras e projetar atitudes corretas? Saberei eu amar e educar sem corromper princípios nem substantivos?  

O mundo nesse mar de dúvidas não é mais singular para mim. Nesse momento sou dois. Penso por dois. E minhas prioridades estão em outra frequência. Quanto maior o meu silêncio a essas perguntas, mais alto os decibéis dos meus medos.

Primeiro filho? Help me Google!

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Saga das Grávidas - parte 2 - 20 cm de paz


Por Priscilla Rios
Viver as coisas simples da vida, isso sim que é luxo.

Ficar de bobeira sentindo a plenitude da cabeça fresca, olhando os garnizés ciscando, o sabiá elaborando estratégias para quebrar a castanha, meu cachorro procurando o melhor lugar para enterrar seu tesouro, e de quebra ter a tranquilidade para ouvir o vento chegar de mansinho nas folhas da parreira de uva e embalar a rede.... Foi preciso chegar a exaustão para saborear tão intensamente essa paz.

Divagando um pouco (cá com os meus gerúndios foras da lei), pode ser que essa sensação de plenitude venha do momento “nave” em que estou vivendo, carregando 20 cm de vida dentro de mim. E quando sinto esses 20 cm mexendo chego a prender a respiração porque tudo para (pára – aos mais apegados) a minha volta. Ao mesmo tempo tudo ganha um “para que” = uma utilidade, uma razão.


Tenho seguido uma trilha de 9 meses rumo a felicidade, a emoção da chegada ainda é um mistério para mim. Como criança só sei o que me dizem que é. E poucas mães viajadas conseguem materializar em palavras a intensidade abstrata do sentimento pós parto. As descrições vagueiam em adjetivos batidos que não acham complementos à altura, as repetições tentam enfatizar o ineditismo do momento em que a nave se abre e ouve-se o primeiro choro. Tudo parece mesmo de outra dimensão. Por isso ando com os pés na lua, a cabeça nas nuvens e com um pequenino terráqueo a bordo.. lá dentro ele muda a marcha dos meus sonhos, planos e da minha definição de paz.

domingo, 11 de abril de 2010

A Saga das Grávidas – parte 1 - Acorda um prego quem não prega os olhos


Por Priscilla Rios

4h da manhã. Meus olhos não abrem nem com reza brava, mas seu eu não levantar o xixi vai ser na cama. Resisto mais um pouco para ganhar uns minutinhos de sono. A bexiga aperta e eu me rendo, levanto. Minutos depois me arrasto de volta e a boca seca exige que eu brinde a plenitude da bexiga vazia com um contraditório copo d´água. Deito. Lá vem a pressão de sempre: se eu não dormir em 15 minutos esse copo d´água pega um atalho pra bexiga de novo numa velocidade que só as grávidas conhecem. Aperto os olhos exigindo o sono sagrado de volta, mas nada prega os olhos. Na cabeça circula uma fila de coisas para fazer quando o garnizé cantar, seguido de uma ideia descabida: sair do quentinho da coberta e passar frio em busca de uma caneta, senão eu durmo em 20 minutos e a parte 1 dessa saga dorme comigo.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Está provado: em boca fechada não entra mosca


Detesto quando eu simplesmente falo sem pensar. Quando vejo já saiu! Aí o arrependimento é tão fino e doído como uma agulha. Vai direto no peito. AI!!!! EU E MINHA BOCA GRANDE!!! E essa mesma boca grande passa o dia todo remoendo desculpas lavadas e salivadas.

terça-feira, 2 de março de 2010

CONFIDENCIAL (FRÁGIL! ESSE LADO PARA CIMA!)

Por Priscilla Rios

O que eu adoro nas minhas amigas são os planos. Elas estão sempre tramando alguma coisa, sempre com uma estratégia em mente. São verdadeiras atiradoras de elite, não saem gastando cartucho à toa. Trabalham feito condenadas, o salário paga as contas e os excessos, os garotos com quem elas fazem planos são estudados e analisados - não tão secretamente assim - por toda a equipe e passam por vários testes ultra-secretos. Elas são especialistas na arte da persuasão, sabem técnicas altamente elaboradas de atuação (bico, choro e cara de triste), podem ser o que elas quiserem, o problema é decidir o que elas querem ser..


O relatório completo do garoto corre em redes confidenciais, é impresso, deletado do sistema e enfim armazenado na gaveta mais alta da cômoda. Aquelas que nenhum santo ajuda alcançar. Quando o caso é encerrado, a equipe se reúne pra dar apoio e cavar falhas que passaram ilesas no relatório. Nesse meio é preciso ser forte, saber lidar com os fracassos e ter faro para resolver os seus casos. Se tem boi na linha mela o esquema, já diz a lógica: o casal são 2 e não 3. A prioridade da missão é não perder o entusiasmo nem a auto-estima. E os dois maiores perigos ao pegar um caso é cultivar com todas as suas habilidades 007 (conquistadas com treinamento e anos calejados) a confiança e a cumplicidade. Se elas quebrarem, o caso já era. Por isso vale a pena adesivar a fragilidade da mercadoria e torcer pra que ao final de uma vida ela ainda esteja lá, intacta ao seu lado, com a vantagem de não ser mais tão frágil e com o bônus de curtirem juntos a aposentadoria.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Grammar

Por Priscilla Rios

É impressionante a capacidade do ser humano de adjetivar seus fardos e conquistas. É a entrevista que foi foda e a viagem que foi massa. A catedral que era fora de sério, a estátua que era perfeita e que provavelmente foi foda de fazer 500 anos atrás. Assim a viagem vai ganhando ares apoteóticos de um momento distante, bom demais para ser verdade e audaciosamente inesquecível. Um espetáculo que a gente faz questão de enfeitar da forma que mais nos convêm, afinal somos os faixas-pretas do adjetivo, ou melhor os língua-preta do adjetivo.

Podemos estar em plena praça San Pietro em Roma, mas sublinhar que o chocolate quente cremosamente irresistível é que estava maravilhoso!

Ainda sim prefiro ser megalomaníaca por adjetivos do que ter gerúndios coçando na boca, se escondendo na falta de criatividade, divagando em círculos só para mostrar que algo estava acontecendo quando finalmente outra coisa aconteceu. É um péssimo hábito do gerúndio ficar esperando por um ponto final e dos adjetivadores banalizar a ênfase das coisas fodas e massas da vida.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Como você se pinta e borda?

Por Priscilla Rios

Vamos falar de exterior. E não precisa ir muito longe nesse trem. Quando você se vê por fora, a ideia de você reflete quem você É? (sim, estou perguntando..)

Para a alegria de muitos, eles nem sequer calculam a imagem que refletem... A maioria das vezes, essa imagem é contrária de como realmente SÃO ou de como se SENTEM. Para outros, entre a “ideia esculpida de si” e o “ser” há praticamente um continente de distância e, para o infortúnio deles, eles sabem disso como ninguém. Enlouquecem tentando alcançar um parâmetro razoável pintando algo entre o que são e o que gostariam de ser. A obra de arte final sai tão remendada como o coração.

O fato é, num primeiro momento, as pessoas (sejam amigos ou amores) se apaixonam pela IDEIA de você. Exatamente como você se pintou e bordou. E talvez aqueles momentos de fúria, mal humor, tédio e ironia lasciva – aquelas que te fazem explicar ao mundo que você estava fora de si – seja exatamente o momento mais cru de você. É claro que você continua sendo você quando bem humorado, mas se está apaixonado – venhamos e convenhamos - é um pouquinho mais bem humorado que o normal. Se está caindo de amores, o saco de paciência é 5 vezes maior.

Pintar e bordar aqui é, ao pé da letra, fazer arte. Você esculpe você. E talvez só não se empenhe em diminuir seus defeitos (aqueles que você conhece muito bem e que já desconstruíram relacionamentos) porque está sempre focado em construir novas qualidades. Não se culpe, ser artista é um talento nato. Antes de admitir a culpa, a gente sempre inventa uma história pra jogar a pedra no outro. É assim no serviço e é assim na vida pessoal. “O casamento acabou porque ele nunca cedeu”, “O chefe vomitava sapos e você os engolia (você não, a ideia de você. Você mesmo jamais faria isso!!)” “O garoto era legal, mas veio avançando o sinal (até rimou rsrsrsrs)”, “a amiga era ótima, mas te disse umas coisas horríveis (ou seriam verdades horríveis?)”. Em todas essas situações tem sempre um dedinho da ideia de você. Em algum momento você deixou transparecer algo que não era. Ok ok, não vai carregar a culpa do mundo nas costas. Mas entenda que as escolhas, ações e reações modificam o todo ao seu redor.

Se você critica quem só valoriza o exterior, mas gasta o limite do cartão de crédito em roupas – a ideia de você te contradiz o tempo todo. Se você critica os apressadinhos, mas dá todos os sinais para o avanço de sinal, não culpe o mundo por essa infração.

Faça uma leitura de si mesma. Saia da vitrine por um segundo. Encontre suas prioridades (você tem uma vida inteira pra errar o ponto e bordar de novo). Pare de pensar no que os outros vão pensar. Inevitavelmente alguns relacionamentos vão acabar, mas esteja certo que você foi 90% você. Tire a ideia da cabeça e pinte, sem falso moralismo, exatamente o que você sonhou.

O que você ganha com isso?? Pra ser curta e grossa: Um L bem grande. Amigos, amores, aventuras e toda uma vida muito mais próxima do seu IDEAL, do que da IDEIA. E, num trocadilho infame, você não faz ideia de como é se sentir em casa - mesmo a quilômetros de casa - por um minutinho que seja.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A porta está bem trancada??

Por Priscilla Rios

É preciso estar muito bem resolvido com o passado, porque ele sempre volta no pior e no melhor momento da sua vida. Se deixar a porta entreaberta, as emoções caducas tomam conta.

Ao sair de uma história tranque a porta e jogue fora o mapa da sua casa. Porque se a sorte costuma bater uma vez na vida, o acaso (leia-se o passado) é um freqüentador antigo que adora entrar sem bater.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Indigna + a + NAÇÃO!


Por Priscilla Rios

Bem vindo ao clube do “não sabemos o que estamos fazendo nesse mundo!”. Os habitantes dessa comunidade são de extrema má vontade, tem uma voz irritante e a habilidade de contornar situações com patéticas frases de efeito: “eu vou ver o que a gente PODE ESTAR FAZENDO”; “TENTA MAIS TARDE”, “eu não tenho NADA a ver com isso”. Tradução: espera deitado.

A movimentação desse povo é tão devagar quanto a fala. Seres camuflados de pessoas que literalmente vieram nesse mundo a passeio e vivem num ritmo de “não sei quem e não sei onde”, é assim mesmo, um ritmo tão perdido quanto essa frase no texto.

Tentar um diálogo com os seres “não sabemos o que estamos fazendo nesse mundo” é o mesmo que ter que fazer uma ligação pra China sem falar uma palavra em Chinês, sabendo que não adianta desenhar nem fazer mímica. Coisa de outro mundo mesmo.

Esse jeito meio tapado de ser é típico de pessoas que fazem o que não gostam, estão insatisfeitas com o salário e acham que cumprir o dever é esquentar o banco da empresa das 8h às 18h. Suas mentes estão diretamente conectadas com o ponteiro do relógio, embora elas não consigam resolver nada em frações de segundos. São horas só pra fazer o download, isso depois de explicar o negócio dez vezes.

E depois de dez vezes explicando a mesma coisa, você começa a se perguntar se o “ser” está fazendo isso de propósito. Começa a achar que a inteligência alienígena é muito maior do que vc pensava. E que sim, enquanto vc está ralando pra fazer o negócio acontecer, ele está lá empurrando o mundo com a barriga e recebendo as azulzinhas sem levantar a bunda. Coisa de profissional.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mea culpa

Por Priscilla Rios

Vamos mexer com quem estava quieto.

Existem momentos de pura crueldade do ser humano. Ele fala o que não acredita com o raso intuito de ferir, e normalmente ferir quem mais gosta. Enquanto aqueles que ele nunca gostou jamais ouviram uma centelha sequer dessas palavras cortantes.

Esse é o momento mais revelador do seu eu primitivo e egocêntrico. E é mentira dizer que você não sabia o que estava dizendo... pelo contrário. Temos a perspicaz capacidade de medir muito bem as palavras para que elas atinjam o ponto exato que desejamos. O problema é que fazemos uso dessa ferramenta irresponsavelmente.

O certo seria dizer que falamos sem sentir e não sem pensar. Porque naquele momento o coração magoado entrega toda a insatisfação para a razão tentar resolver. E a razão que nunca teve um posto de muita importância dentro da empresa, no momento em que é promovida fica arrogante. Diz tudo o que ficou entalado com vogais e consoantes afiadas. Só depois que a razão vomita todos os sapos com sua aspereza nada sutil, é que o coração assume novamente o posto com a desculpa de que não sabia onde estava com a cabeça....

E não importa se passarem 10 dias ou 10 anos, aquele momento de total irresponsabilidade psíquica persegue os teus melhores sonhos. Pior ainda, assusta a possibilidade de que aquele ser humano cruel seja você. Você que sempre se considerou uma boa pessoa...

O pior é que às vezes essa insatisfação é velada e não se revela em palavras, mas com atitudes na surdina. Como segredos bem guardados no baú e que você treme só de pensar que um dia eles podem sacudir a poeira e sair atleticamente correndo de lá (vai malhando, porque se for sedentário não vai alcançá-los nunca rsrsrsrs).

É fato: tem coisas que o tempo apaga e outras que ele apenas põe pra dormir. O sentimento de culpa é assim.. por mais que passem décadas primaveris, ninguém escapa desse fantasma.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

My WORLD


Por Priscilla Rios

Dessa vez não fui eu, foi o mundo que mudou. Ele me parece mais largo, mais amplo, mas sábio. Plural por fora e individual por dentro. Moleque travesso, como que na ponta dos pés para alcançar o que quer na estante. Dessa vez não fui eu, eu juro. O mundo é que está diferente. Ganhou personalidade. In the past was just IT now it seems HE. And now more than ever he is blue, but not a sad blue, otherwise, happy. Eu consigo ouvir blues saindo de dentro do mundo. Uma canção baixinha que toca quando vejo movimentos em câmera lenta: pessoas roubando mangas do pé, minha família inteira correndo na chuva na virada do ano, meu marido me surpreendendo com uma declaração fora de hora, minhas amigas tomando iniciativa e fazendo o que sempre sempre sempre quiseram, assim mesmo e com essa repetida intensidade. É a engrenagem velha e arcaica da ordem desordenada das coisas voltando a funcionar e ganhando novo fôlego nesse novo ano. Me refiro àquelas coisas sem sentido na hora e que recebem um significado todo especial meses depois. Não sei se acordei com “olhos de pétalas” e estou enxergando o mundo com uma suavidade tocante, ou se ainda estou dormindo e nos meus sonhos são só flores! Se ontem eu queria consertar meu mundinho hoje ele me parece uma obra-prima, que sobrevive perfeitamente sem mim e eu é que tenho sorte de poder de dentro do mundo conseguir ter uma visão de fora dele. Como uma extraterrestre admirando os terráqueos. E hoje eles me pareceram tão inofensivos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Wishes 2010


Por Priscilla Rios

Se eu pudesse resolveria o meu mundinho...

Casaria os meus melhores amigos uns com os outros. Daria-lhes filhos na mesma época em que tivesse os meus só para crescerem amigos. Moraríamos todos na mesma rua, para poder pedir o açúcar emprestado sem cerimônia e saber que a casa está bem cuidada nos períodos de viagens rsrsrsrsrs. Nos encontraríamos com mais frequência ao longo do ano e faríamos planos de viagens que sairiam do papel de uma vez por todas!! Reencontraria o povo da infância pelo menos 1 vez por ano para pôr as fofocas em dia. Comeria comida japonesa duas vezes ao mês, peixe em casa duas vezes na semana (talvez três), sairia para jantar fora com mais frequência (ouvindo bossa ao vivo), iria ao cinema semanalmente (coisa de cinéfila), veria meus pais pelo menos uma horinha todos os dias (nada de cortar o cordão umbilical), comeria mais brigadeiro na panela, colocaria o pé na estrada e a cara no mundo duas vezes por ano e enfim, andaria sem medo no escuro.

Tribute to the artist Jing Wei


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Dia de confete

Por Priscilla Rios

Tem dias em que eu devia era ficar dormindo. Nem levantar da cama. É aquele dia em que você se sente um lixo, incapaz de conquistar suas metas mais simples. Começa a se perguntar se está no caminho certo; se depois de batalhar por anos a fio pelo que quer (aliás, se é mesmo o que quer..), se vai valer a pena. Nesses dias de desânimo, baixa estima e auto-piedade até o bom humor e o empreendedorismo das pessoas irrita. Só o que eu preciso para voltar a enxergar as cores das minhas ambições é confete. Ser elogiada, ser mimada, requisitada. Coisa de quem precisa ser lembrada de sua importância intergaláctica para a sobrevivência do planeta. E ainda que esses mimos sejam pura ilusão, me fazem acordar heroína no dia seguinte. Capaz de reescrever vários finais felizes para a minha história. É justamente para momentos assim que pintaram e bordaram o ditado: nada como um dia após o outro....